Pirocar pirocos

Discutir o piropo pode ser ou não relevante. Quero deixar a minha contribuição nas palavras do imortal Brochnyziev, falecido há dois meses.

“Anda cá, vou-te encher o depósito”, disse o gasolineiro à figura antropomorfa-auto-móvel. Cromados curvilíneos sobre imaculada camada de tez bronzeada, o clássico Opel sujeita-se à simbiose entre bombeador e bombeado, numa dança erótica de agulheta sonora em tampão niquelado. Como num Lobo Antunes, o vermelho sôfrego da luz parda transmite frequências luminosas audíveis nas cordas de uma guitarra, portuguesa como Maria, a cozinheira sua esposa e companheira. Salta a tampa do espumante, jorrante, espumoso, branco, potente, ejaculante caldo borbulhante, por um instante, e um só apenas, de pressão contida em cortiça de sobreiro, o verdadeiro, hirto e firme, ao tempo, ao vento. “Doravante serás conhecido por mamona”, e molha o Ascona, com o suco baptismal. Um homem e o seu carro, a banheira que o tem, que o emboca e o acolhe, que o aumenta e o encolhe, que o rodeia e balanceia, relação quasi-fetal, mas vertical. “Precisas de pistões”, “és calço dos meus travões”, “devagar com a manete”, “mete a 5ª, anda, mete”. Um dia, uma hora, um andaime, um açaime. “Vou mudar-te o escape”, “isso gazes é da panela”, “devagar senão ele parte”, “ou injector ou a vela”. Um ser, estar, criar e voar, acelerar, virar, brecar, contornar, capotar. Rola no palheiro, rola… Em vitelo senta, “assim arrebenta”, mete a primeira e anda cá, Maria, senta.