Método de comparação internacional anotado

Isto pode ficar um bocadinho maluco, por isso, leia por sua conta e risco:

A história ainda popular sobre a crise portuguesa e europeia do euro, cheia de vida desde 2008, baseia-se em imagens ou alegorias acessíveis a todos os que não entendem de economia ou que não querem gastar o seu precioso tempo, com toda a legitimidade, para a entender.

Franqueza só lhe fica bem.

Muitas pessoas com cursos de economia, alguns tirados há décadas atrás, ganharam legitimidade junto da opinião pública e ajudam a popularizar essa história.

Idem.

É a história do “viver acima das possibilidades” e da “austeridade virtuosa”.

Hein? Tal não é possível, certo? “Viver acima das possibilidades”. É uma imaterialidade; é sempre possível viver abaixo das possibilidades, nunca acima.

A história que equipara uma economia nacional a uma economia caseira.

Hum? Praticante de “austeridade virtuosa” no seu lar?

Nas salas de aula de Economia, todavia, estas histórias não passam.

Isso é grave. Significa que há demasiados socialistas a doutrinar nas aulas de Economia. Ergo, não é uma ciência.

Em Economia Internacional, o viver acima das possibilidades é um saldo negativo da balança de transacções correntes e o que aconteceu desde 2008 foi uma paragem brusca do acesso do Estado, das famílias e das empresas, ao crédito externo.

Mas não vamos comparar com economia doméstica, OK? Vamos lá riscar as famílias e as empresas daí, que foi um pequeno lapso.

Em Crescimento Económico, austeridade virtuosa é uma entre dezenas de teorias de crescimento, e das mais velhas.

“Crescimento Económico”? Com capitalização? É uma disciplina nas aulas de Economia onde “estas histórias não passam”? Podemos elaborar em que consiste essa velha teoria neste admirável mundo novo?

Em História Económica, o combate a saldos externos negativos através de políticas de austeridade foram a origem da passagem do crash de Nova Iorque de 1929 à Grande Depressão, sendo que a solução desta passou pelo abandono da austeridade.

Ai foi?

Há conhecimentos que se ganham e hoje sabemos mais do que ontem.

Nem todos.

Mas é sempre fácil ultrapassar os conhecimentos com a repetição de frases feitas.

Como “austeridade virtuosa”?

Como mudar isto?

Pois. Como?

Vai ser difícil e, como se viu no post anterior a este, o problema não é só português.

Oh… Vamos mudar também o Burkina Faso.

Há um largo caminho a percorrer.

Longuíssimo. Mais que uma legislatura, talvez.

Todavia, há um primeiro passo a dar, que é o de começar a falar de outra maneira.

OK, alinho.

É preciso ter bem consciente que a narrativa popular se funda em termos cuja utilização a perpetuam.

Chama-se “língua portuguesa”. É uma das velhas.

Por exemplo, a divisão entre transaccionáveis e o seu oposto, faz parte dessa história simples, assim como tudo o que divide a economia em duas e apenas duas variáveis.

Recordemos que “é sempre fácil ultrapassar os conhecimentos com a repetição de frases feitas”.

Abandone-se, portanto, tudo o que seja dicotómico.

Abandonado. Decrete-se.

Outros exemplos: mercado de trabalho não é nada, fale-se de empresas e trabalhadores;

Isso não é dicotómico?

investimento produtivo não diz nada, fale-se de empresas e investimento;

Ah, dicotómico é bom.

crescimento não diz nada, fale-se de crescimento e emprego;

Por falar nisso… Pronto, percebi: está estabelecida a causalidade. Ainda bem que frequentei as aulas de Economia das boas.

emprego não chega, fale-se de emprego e formação profissional;

Já percebemos.

economia é pouco, fale-se de economia e sociedade.

Por oposição à economia sociopata.

E por aí adiante, ao gosto do freguês.

Eu é mais método de comparação internacional.

E pense-se também se se devem fazer reuniões com “economistas” ou com “conselheiros” para as questões económicas e sociais.

Como aquela em que o caro professor esteve na semana passada?

Finalmente, desvalorize-se o Orçamento de Estado que, sobretudo, não deve ser razão para eleições antecipadas (que, então, deverão ser justificadas por razões políticas relevantes).

Boa ideia: sugiro eleições anuais antes de cada Orçamento de Estado.

Virar a página significa, neste caso, mudar de linguagem, e muito.

Creio que beneficiará, e muito, o seu caso. Sugiro que tente Português.