Entrevista a um indignado

Bernard, que o fez tornar-se indignado?
Eu estava noutro ramo, o da imprensa escrita mas, com os cortes e as quebras nas vendas de jornais, percebi que tinha que mudar de vida. Ao início pensei que isto da indignação ia ser temporário, até encontrar algo com mais futuro mas, rapidamente, percebi que esta é uma indústria com muito potencial de crescimento nos próximos anos.

Mas como surgiu esta oportunidade?
Como disse, estava como que entre empregos, sem saber bem o que fazer. Um dia, a minha amiga Fernanda perguntou-me: “olha, porque não te indignas com isto” e foi assim mesmo que comecei.

Fernanda Câncio?
Fernanda Antunes, trabalha numa sapataria.

Ah…
Pois. Mas ao início foi difícil: primeiro porque há muitos temporários, que estão simplesmente a cavalgar na onda de indignação dos outros e, segundo, porque há pessoas que estão na indignação por motivos menos dignos, aproveitando-se da indignação para o cumprimento de uma agenda própria. Por outro lado, como estes se aproveitam da indignação para motivos menos dignos, geram uma nova onda de indignação legítima que merece todo o meu apoio.

Quem são os seus ídolos na indignação?
O Daniel, a Raquel, a Fernanda, a Edite, o José, o João… São tantos…

Oliveira, Varela, Câncio, Estrela, Lello e Galamba?
Não, Rodrigues, Benavides, Antunes, Lisboa e Silva.

Ah…
E o filósofo, cada vez melhor… e o Mário…

Sócrates? Soares?
Não, Armindo Bosco e Mário Domingues.

Ah…
As verdadeiras faces da indignação não procuram a fama.

Vejo que é uma área em que há muita competição.
Pois vê. Vê e vê bem. Foi o que eu disse: há falsos indignados que, sem pensarem no assunto, apenas geram novos indignados.

Como vê os sindicatos?
Vejo bem. São necessários e a única forma institucionalizada de indignação que permite que funcionemos pelos flancos. Estou verdadeiramente preocupado e empenhado com a criação do sindicato dos indignados que, através do subsídio estatal, permitirá legitimar muito do nosso trabalho.

Com quotas?
Sim, um sindicato tem que ter quotas: não podemos discriminar as mulheres.

Não, quero dizer, uma mensalidade?
Ah, isso à partida não, porque é uma forma de opressão ilegítima e usurária sobre a indignação. A indignação é um trabalho como outro qualquer, que deve ser recompensado com um salário justo, que faz muita falta na sociedade.

Como vê as acções de Mário Soares ou os congressos em torno de Rui Rio?
Com naturalidade. É natural que as grandes marcas tentem capitalizar da indignação. Compete-nos a nós, os verdadeiros indignados, assegurar que o monopólio da indignação não é aglutinado pelo sistema capitalista que potencia o crescimento dessas marcas.

Tem planos para 2014
Indignar-me.