Dois mitos sobre a emigração que importa serem desmontados

Duas malas de cartão numa terra de França
Um Português deixou assim seu Portugal
Como tantos outros, ele não perdeu a esperança
O Português que deixou seu Portugal

Aqui, a noite junto aos seus amigos
Ele procura viver
Lembrando, a sua mulher e seus filhos
Ele canta p’ra esquecer

Ele canta fados tristes e tradicionais
O Português que deixou seu Portugal
E como aqui a chuva p’ra ele é demais
Ele vai pensando ao sol do seu país natal

Enquanto, sua mulher escreve dia a dia
Ele vai pensando em voltar
P’ra ele, a sua melhor alegria
Era seus filhos beijar

Duas malas de cartão numa terra de França
Um Português regressa ao seu país natal
Levando com ele, carinho, amor e esperança
O Português que entra enfim ao Portugal

Em primeiro lugar, não é uma mala de cartão que acompanha o emigrante; o já depauperado português escusa de ser ainda mais humilhado retirando-lhe metade da bagagem: são duas malas de cartão.

Em segundo lugar, há ideias pré-concebidas sobre a pluviosidade nacional que importa desmontar: de acordo com as estatísticas do World Statistics Pocketbook das Nações Unidas, a média entre 1931 e 1960 da precipitação anual em Lisboa é 753 mm, superior aos 650 mm de Paris. Claro, pode o emigrante ter decidido sair de Portimão para Bordéus, algo que lhe validaria a teoria do sol do país natal mas, nesse caso, a comparação está um bocado mitrada já que também se queixaria da chuva se simplesmente tivesse abalado para Vila Real. De qualquer das formas, nenhum ser humano decente oriundo do Algarve andaria a cantar “fados tristes e tradicionais”, isso é um contra-senso reservado a lisboetas e poetas de Coimbra; o resto do país é mais ranchada da boa e alegria, que tristezas não pagam dívidas.