Anti-elegias a Lou Reed

Já toda a gente fez as elegias fúnebres ao Lou Reed, umas cuidadas, outras cheias de videos de Perfect Day merecendo um Pacheco Pereira afirmando que “esta não é a questão essencial”. Vou fazer agora a minha e pronto, quem não quiser, que não leia (que é o estado mais normal neste blogue, o de não leitura).

Sempre que ouço Perfect Day, vejo um drogado, daqueles a quem fingiria ignorar na rua enquanto protegia o iPhone no bolso das calças. A culpa não é, porém (e desta vez), do Danny Boyle pela inclusão da canção na banda sonora de Trainspotting (1996): o livro de Irvine Welsh refere directamente Lou Reed três vezes1,2,3, apesar de não referir a canção. “You’re going to reap just what you sow”, uma referência à Epístola aos Gálatas 6:7 (“Make no mistake: God is not mocked, for a person will reap only what he sows”), retira qualquer ambiguidade à canção, pelo menos na minha interpretação, não na interpretação da BBC. O álbum Transformer [1972], onde Perfect Day aparece, precede Women de Charles Bukowski em 5 anos. Aqui, Bukowski diz a mesma coisa de forma ainda mais concisa: “I think I need a drink. Almost everybody does only they don’t know it”. Reed e Bukowski sempre tiveram em comum as suas personagens: desgraçados, tão glorificados à categoria de heróis como torturados à categoria de sub-vida. Nenhum dos autores atribui culpas, limitam-se a trazer a sujidade para o plano pop – e é aqui que me irritam as referências dos colectivistas-democratas-encartados quando reproduzem a letra de Dirty Blvd. (New York [1989]), como que relevante para a crise de défices crónicos de hiper-despesismo-inútil que penumbra Portugal, apesar de escrita em 1988 numa Nova Iorque governada por democratas desde 1945 (para os socialistas, 43 anos é sempre um bocadinho menos do que o necessário para o Éden terreno).

Em New York [1989], também não há atribuições de culpas. Há sim uma denúncia da hipocrisia subjacente no discurso político e até no próprio autor: Good Morning Mr. Waldheim é denúncia de anti-semitismo (tanto levam no corpo o austríaco Waldheim como o ministro baptista democrata Jesse Jackson); Strawman critica políticos (“Does anyone need yet another politician caught with his pants down and money sticking in his hole”) como (outra vez) Jesse Jackson (“Does anyone need another racist preacher spittin’ in the wind can only do you harm”) como o próprio Reed (“Does anybody need another self-righteous rock singer whose nose he says has led him straight to God”).

A política de Reed parece ser a das pessoas, portanto, muito menos socializante que a colectivização actual que por aí circula. Isto pode incluir até a própria percepção de Reed do seu trabalho, o que nos levaria a uma discussão inútil.

Todos – mas todos – os elegistas de Reed centram-se/centrar-se-ão na fase Velvet Underground, Lou Reed/Transformer, Berlin, Sally Can’t Dance/Rock’n’Roll Animal e depois, esqueceram/esquecerão tudo que se passou até New York/Songs for Drella. Curiosamente, o melhor e mais definitivo trabalho de Lou Reed é a zona escondida: The Blue Mask [1982], Legendary Hearts [1983] e New Sensations [1984]. Os críticos, tal como os bloguers elegistas, exceptuando Robert Christgau, esqueceram/esquecerão este período. Portanto, se o leitor ainda compra CDs, aproveite: estes são os que se encontrarão numa pilha de promoções abaixo de 5€, se sequer existirem em catálogo.

As elegias a Reed recordam-me uma observação de Dylan sobre o reconhecimento do seu álbum Blood on the Tracks [1975]: “A lot of people tell me they enjoy that album. It’s hard for me to relate to that. I mean, you know, people enjoying that kind of pain?”. A minha homenagem a Reed é, assim, simplesmente, para deixarem de ler elegias a Reed e irem ouvir os álbuns referenciados no parágrafo anterior. E é só.


1

The bad–taste bastard breaks the junky’s golden rule by pitten oan ‘Heroin’, the version oan Lou Reed’s Rock ‘n’ Roll Animal, which if anything, is even mair painful tae listen tae whin yir sick than the original version oan The Velvet Underground and Nico. Mind you, at least this version doesnae huv John Cale’s screeching viola passage oan it. Ah couldnae huv handled that.

Voltar ao texto

2

– Yeah, but it’s a fuckin miserable life, likesay, man. It’s nae life at aw, ken? Likesay whin yir sick man … that is the fuckin lowest ay the low… the grindin bones… the poison man, the pure poison… Dinnae tell us ye want aw that again, cause that’s likesay, fuckin bullshit. The response packs a bit of venom, especially by Spud’s gentle, laid–back standards. Renton notes he’s obviously touched a nerve.

Aye. Ah’m talkin a loaday shite. It’s the Lou Reed.

Spud gives Renton the kind of smile that would make old wifies in the street want to adopt him like a stray cat.

Voltar ao texto

3

The fragile unity is shattered when Sick Boy and Renton have an argument about the merits of the pre and post Velvet Underground achievements of Lou Reed. Sick Boy is uncharacteristically tongue–tied under an onslaught from Renton.

Voltar ao texto