Querido condomínio

Exmo(a). Senhor(a) administrador(a) do condomínio,

Venho por este meio comunicar-lhe a minha disponibilidade para pagar quotas, nomeadamente para assegurar o usufruto do elevador e outras benesses inerentes às áreas comuns, como a hipótese de acender as luzes. A água não me preocupa muito, quer porque o meu consumo se reduz a 20 ml anuais, quer porque o elevador não é hidrodinâmico, apesar das coisas exóticas que gosta de ser. Teria todo o gosto em assegurar, pela parte que me toca, que nenhum desses serviços seria cortado por falta de pagamento, bastando, para assegurar a minha quota mensal, conhecer a composição da administração. Posso estar a exigir demais mas, como é só uma fotocópia, poderei avençar já os 20 cêntimos que a assegurem sob entrega de recibo.

Existem meios possíveis para a sua identificação, por exemplo, recorrendo a perguntas aos restantes condóminos e, quiçá, ditam as probabilidades, por chance, calhar efectuar a pergunta ao próprio logo na primeira tentativa. Para sua informação, essa probabilidade é de 11,11%, se o administrador for residente; 0% se se tratar de pessoa externa ao prédio. Outro método, bem mais fácil e fiável, seria a entrega da Acta da Assembleia Geral realizada há uns meses, uma em que não participei, escusando-me, portanto, do processo decisório mas nunca, como poderia já ter compreendido, do conhecimento formal das suas deliberações. Um erro comum, talvez motivado por uma noção difusa do conceito de propriedade.

Uns senhores insistentes, que foram administradores no ano passado, talvez até o sejam este ano, não sei, já que há, de facto, a hipótese de ainda o serem pela recusa de eleição de nova administração, diz a lei, continuam a telefonar-me, não sei bem porquê, perguntando-me pela acta dessa Assembleia Geral, a tal em que não participei, para que possam passar a pasta, dizem-me, porque eu disto nada sei, nem me interessa particularmente, desde que alguns luxos do mundo moderno, como os descritos anteriormente, nomeadamente o uso do elevador, já que ele ali está, a tentar as pessoas que o usem, algumas que até compraram apartamentos num determinado piso pela sua existência, porque, bem, dá jeito, até pela inexistência de um sistema de roldanas que permita carga para os pisos superiores, uma ideia que não deve ser descartada, a juntar a tantas outras como substituição de bombas ou, quem sabe, de um sistema com um parque de guardas-chuva que evitem a substituição de telhas, não descartando o parque dedicado à columbofilia amadora.

Bem, estou a alongar-me e, talvez até, possa estar a ser confuso com este texto, coisa que não me envergonha particularmente, já que confusão é o estado natural que demonstro sempre que reparo não pagar quotas e continuar a ter elevador e essas outras modernidades que não disponho na maioria dos parques de campismo.

Enviei cópia desta… comunicação, igualzinha, sem tirar nem pôr, aos senhores que eram administradores no ano passado, na vã esperança que ainda o sejam, porque limpar escadas não é hobby que tencione abraçar, com tantas distracções mais giras disponíveis, como a filatelia oriental ou o fricassé de pombo, queira a ASAE não reclamar para si o monopólio das estampilhas postais.

Cordialmente,

Parreira

(Co-proprietário de 3 fracções, 5º maior accionista do prédio, conhecido como “o gajo do andar de cima, não esse, o outro”, fazedor de algum barulho mas não fora da média, gosta de ler, filmes com explosões e longos passeios marítimos ao pôr-do-sol.)