A ala socrática

Há pessoas que me perguntam como é possível a ala socrática ter tanto peso no PS e nos media. A resposta é simples: não tem.

São barulhentos, aguerridos, até insultuosos, centram-se em duas ou três personagens e são coordenados; porém, essa prevalência em redes sociais e nos media em geral, é só fachada para a inexistência real de um núcleo com peso efectivo dentro do partido. Uma parte substancial da estratégia consiste em bullying, provocando adversários aparentes, esperando resposta que permita vitimização. Não é hipocrisia, é política, da mais simples que há. Claro, insulta-se este, zomba-se daquele, investiga-se os podres deste, tenta-se passar uma timeline por “pesquisa” e assim se vai aparecendo. Qualquer um pode ser vítima, se assim o desejar – basta participar, acreditar que se está a defender de injúria, essas coisas básicas do ser humano que de forma basal tende à defesa mesmo antes de perceber o ataque. E ataque não há nenhum: é deixar as pessoas a falarem sozinhas que, sem oxigénio não há incêndio. Eu sei do que falo, faço o mesmo como forma de estudo destes fenómenos locais, as pequenas manifestações de auto-importância que são tão fugazes como inconsequentes fora do círculo.

O PS conhece a técnica, bolas, lidou internamente com ela durante 6 anos, se não mais. Há pessoas na calha, gente que fez carreira para chegar a um ponto de elegibilidade. Essas pessoas – António Costa é uma delas – sabem esquivar-se entre os pingos da chuva para não se tornarem reféns de um grupo restrito mas barulhento de agitadores. É política, estúpido. Um dia chegará a vez deste ou daquele. Seguro ainda não demonstrou se sabe ou não lidar com os 20 ou 30 maluquinhos presos à figura messiânica. Como em todos os partidos, ex-líderes pretendem-se ícones, não torres num jogo de xadrez que há muito terminou. A ala socrática, os 20 ou 30, estão condenados à inviabilidade da manutenção da coesão. A cisão é fácil, está descrita por Sun Tzu, capítulos 3 e 6: a unidade que necessita o partido, qualquer partido, não se coaduna com as aberturas de flancos que evidenciem fraquezas. Alguém tratará de separar a coesão, através do ego, com meia dúzia de nomeações para ali e para aqui, em locais de prestígio mas que não permitam causar ondas, oferecendo a construção de uma carreira que poderá trazer cargos políticos no futuro.

Dar-lhes atenção hoje, por muito que insultem a vossa mãe, é mera perda de tempo.

Adenda: retirei os botões de sharing; eles que cheguem à conclusão sozinhos.