Somos solidários?

Num artigo muito interessante, Atul Gawande do Brigham and Women’s Hospital de Boston, analisa a forma fluida e expedita dos procedimentos de socorro às vítimas do atentado terrorista.

Talking to people about that day, I was struck by how ready and almost rehearsed they were for this event. A decade earlier, nothing approaching their level of collaboration and efficiency would have occurred. We have, as one colleague put it to me, replaced our pre-9/11 naïveté with post-9/11 sobriety. Where before we’d have been struck dumb with shock about such events, now we are almost calculating about them. When ball bearings and nails were found in the wounds of the victims, everyone understood the bombs had been packed with them as projectiles. At every hospital, clinicians considered the possibility of chemical or radiation contamination, a second wave of attacks, or a direct attack on a hospital. Even nonmedical friends e-mailed and texted me to warn people about secondary and tertiary explosive devices aimed at responders. Everyone’s imaginations have come to encompass these once unimaginable events.

A última ocorrência que recordo ter gerado alerta de emergência generalizada em hospitais de Portugal foi a queda da ponte de Entre-os-Rios1. Tal como o 11 de Setembro, também ocorreu em 2001, há mais de uma década. Não tenho dúvidas que os diferentes profissionais, se confrontados com um atentado terrorista ou catástrofe semelhante, fariam o necessário, de forma voluntária, sem necessidade de requisições civis ou sequer requisição informal das administrações e direcções de serviço. Fizeram-o em 2001, também o fariam hoje.

Tenho, porém, dúvidas acerca do dia seguinte: o que fariam os sindicatos? Exigiriam horas extra? Aceitariam trocas destas por períodos de descanso? Seriam inflexíveis nos direitos consagrados pela Lei, tornando assim uma catástrofe nacional numa actividade lucrativa para os intervenientes? E se sim, estariam a representar a vontade dos profissionais que voluntariamente se apresentaram nos serviços?

Quando falamos de “nós”, dos portugueses, temos que estar dispostos a enfrentar estas questões. Num universo menos colectivista2, ficaria ao critério de cada um sentir, que por umas horas, a sua ocupação poderia ser puramente altruísta. Como seria numa sociedade socialista de direitos adquiridos?

Alguém que use o termo “solidariedade” quando é para pedir está disposto a responder a estas questões?


1 Descontando planos alarmistas referentes a gripe das aves, mais políticos que de saúde pública.
2 Há sindicatos nos Estados Unidos. Em algumas áreas são muito mais inflexíveis que organizações semelhantes na Europa.