Porque não pode a Merkel pagar-me a conta da luz?

Vamos tentar dissecar os motivos da sua estupidez. Não se ofenda, é provável que não entenda metade dos insultos que lhe vou dirigir e não precisa destacar com reforçado relevo as suas limitações. Não é vergonha ser estúpido se souber manter a boca fechada na altura certa, isto é, na presença de outras pessoas. Ser estúpido não significa que seja má pessoa, significa apenas que tem que se esforçar mais para não se babar. Calma. Respire fundo. Responda às seguintes questões para começar a aprendizagem das competências (não percebeu a piada, pois não? É natural).

Interroga-se frequentemente do mau cheiro que apareceu subitamente no elevador quando nele viaja sozinho? Sente frequentemente que a sua sombra não tem proporções correctas? Joga no Euromilhões com um decidido sentimento que “é desta”? Acha que as pessoas complicam demasiado quando lhe explicam o motivo pelo qual a sua esposa deu à luz uma criança de outra etnia? Queixa-se frequentemente que não aguenta a crise usando o seu smartphone? Sente que o problema do mundo é falta de igualdade? Acha que o Sócrates não é assim tão mau? Acumula qualquer resposta afirmativa a estas questões com o facto de ter feito um curso de economia? Por algum motivo incompreensível é filiado num partido? Era a escolha entre o partido e o rancho folclórico mas não sabe dançar? Compreendo a sua dor. Vamos resolver isso.

Tecnicamente, a Merkel pode pagar-lhe a conta da luz. Não é a isso obrigada nem imagino porque o devesse fazer, mas, para efeitos de tratamento, suponha que o faz. Tome nota, já lhe estou a pedir para decorar uma hipótese, talvez seja melhor escrever num papel para não se esquecer. Imagine (esforce-se, é complicado) que o seu vizinho também quer que a Merkel lhe pague a conta da luz. Acha bem? Lembre-se que Merkel pagou a sua (olhe para o papel, vê?). Agora escreva no papel que a Merkel pagou a conta da luz do seu vizinho (escreva também o nome dele e “Merkel pagou-lhe a luz”. Com z. Tire o acento do u. Isso). Agora escreva todos os nomes próprios que conhece (João, José, Pedro, Maria, Joaquina… é o primeiro nome). Escreva à frente de cada um “Markel pagou-lhe a luz”. Com z. Copie do de cima… Tente não sair das linhas… Isso. Mais pequena a letra senão não cabe… Isso. Muito bem, estamos a fazer progressos.

Agora imagine que passou um mês. Sim, um mês. Faça de conta que não está a chover. Não está a chover agora? Pois… Pense então que chegou a altura da próxima queca. Isso, três meses também serve. Óptimo. Agora olhe para a lista de nomes que escreveu há pouco. Tente adivinhar quantas dessas pessoas querem que a Merkel lhes pague a conta da luz outra vez. Sim, incluindo você… Não sabe o que os outros pensam? E você, quer que a Merkel lhe pague a conta da luz nesse mês? Quer? Eu entendo. Afinal ela pagou-a este mês, não foi? Claro que foi. Você adquiriu um direito. Sim, um direito adquirido. Isso. Agora você não quer abdicar de ter a Merkel a pagar-lhe a conta da luz, não é? É um direito adquirido. É imoral retirar direitos às pessoas, não é? Pois é. Agora escreva aí noutro papel (um papel mais bonito, talvez mais grosso, com um ar de coisa formal): “Constituição: Ponto 1 – Os cidadãos têm o direito a que a Merkel lhes pague a conta da luz”. Pendure este papel na sala. Olhe para ele. Está a ver? É bonito. Você gosta do que lá diz, não gosta? Há um problema. Está preparado? A Merkel faliu. Sim, faliu. O que é falir? É não ter dinheiro nem forma de o arranjar sem que lhe emprestem. Isso mesmo, como o Artur. Sim, o que gosta mesmo de fanecas. Isso mesmo. Faliu porquê? Bem, um dos motivos foi andar a pagar a conta da luz a todas as pessoas que você escreveu no papel. Entendo que esteja desolado. Sim, compreendo. Porque não se endivida a Merkel para poder continuar a pagar a conta da luz a toda a gente enquanto tenta arranjar um emprego no McDonalds para fazer crescer o seu rendimento?  Faz sentido a sua pergunta. Eu explico: uma das dificuldades que a Merkel tem em arranjar quem lhe empreste dinheiro é ela ser conhecida por pagar a conta da luz a um monte de desconhecidos. É. Sim, quem empresta dinheiro não acha uma actividade rentável pagar a conta da luz a estranhos. Pois, eu sei, o mundo tem destas coisas, nem todos são tão estúpidos como você. A outra hipótese? A outra hipótese para que a Merkel lhe pague a conta da luz é deixar de pagar a conta dos outros e passar a pagar só a sua. Talvez a dela também. Sim, ela pode fazer isso. Por quanto tempo? Talvez mais um mês. É. Sim, depois volta a falir. Sim. Pois.

Agora deixe-me fazer-lhe uma pergunta: o que andou a fazer com dinheiro que poupou enquanto a Merkel lhe andou a pagar a conta da luz? Ai não cresceu? Foi uma oportunidade perdida, com erros à mistura? O mundo mudou de repente e os seus vizinhos diziam muito bem de Punta Cana? Pois, eu entendo. Sabe o que vai acontecer agora? Não? Eu explico-lhe: da próxima vez que chegar a conta da luz, dê ao cobrador o papel lindo que tem na sala e que diz que todos os cidadãos têm direito a que a Merkel lhes pague a conta da luz. É. Pois. Pois. Pois é, pois é. Não se preocupe, eu cá estarei para o defender dizendo que a Merkel tem que lhe pagar a conta da luz senão viola a constituição. Digo, pois. Digo, sim. Vai adiantar um grosso. Mas pronto. Pois é.