Lusa confusa, mal viral

O que faz com que algumas ideias sejam repetidas em lugares diferentes, por pessoas não relacionadas, em diferentes contextos, com factor multiplicativo expressivo? Tal como uma notícia de grande interesse público – uma grande catástrofe – percorrem uma rede viral, uma transmissão de elevada persistência, fluxo ao qual o indíviduo não consegue escapar, mesmo que o deseje. “Não quero ouvir falar do incêndio” nada faz: em cada café, aglomeração de pessoas, barbeiro ou esquina, lá está, é inevitável.

O mesmo processo acontece com a propaganda colectivista-cainesiana. Quando, por exemplo, vemos reproduzida de forma viral a expressão “já não é possível assegurar a qualidade de vida de populações à base de dívidas, devendo os países da zona euro preferir aumentar a sua competitividade” (que já me motivou um post hoje), convém perceber quem criou e difundiu a confusão. “Preferir aumentar competitividade” dá a sensação de uma opção, talvez até ideológica, no mínimo de pragmatismo político. O artigo foi reproduzido assim, com a opção pela competitividade como fazendo parte da entrevista original. Está no Público, Notícias ao Minuto, TVI/IOL, Jornal de Negócios, Dinheiro Vivo, Jornal de Notícias etc. etc.

Tudo teve, naturalmente, origem no lead da Lusa:

O que faz a Lusa inventar a opção pela competitividade, se ela não existe na entrevista original? O livro de estilo da agência noticiosa é claro, a conclusão deixo para o leitor: incompetência ou consequência de empresa pública ideologicamente vinculada e dependente do orçamento?

(destaques meus)

A agência não toma partido em conflitos políticos ou armados, nem em questões sociais, laborais, religiosas, culturais ou ideológicas. Não tem opiniões, simpatias ou antipatias. É rigorosamente factual e equidistante. A sua única missão é informar, transmitindo aos destinatários os acontecimentos de que tem conhecimento. As características de absoluta isenção, rigor e objetividade levam à eliminação de adjetivos no noticiário. Quando um adjetivo aparece, que seja descritivo e não valorativo. Do mesmo modo, a busca de isenção exige o maior rigor na escolha do vocabulário. Devem ser abolidas as palavras com carga política ou ideológica, os termos pejorativos ou elogiosos que marquem posições de repúdio ou de preferência, assim como as expressões grosseiras, os insultos, as expressões preconceituosas, xenófobas ou racistas, puníveis além do mais pela lei portuguesa.

Verbos fortes, expressivos e apropriados: “contar” não é o mesmo que “dizer”, nem “argumentar” é o mesmo do que “referir”, por exemplo. A voz ativa em detrimento da voz passiva; tempos simples, em vez dos tempos compostos.

O ‘lead’
O ‘lead’ corresponde ao primeiro parágrafo de uma notícia. Deve resumir o essencial do acontecimento, respondendo às perguntas clássicas – quem?, o quê?, quando?, onde? – e, se possível, ao como? e ao porquê?. Estes requisitos não se colocam nas reportagens, nas quais o texto pode abrir com a descrição do ambiente, do cenário do acontecimento, de algo que dê a “atmosfera” do que vai ser relatado. Este tipo de arranque do texto, mais imaginativo, pode tornar uma história mais interessante para o leitor e permitir uma escrita mais viva e com maior qualidade narrativa. Quanto às notícias, os jornalistas devem saber que o verbo utilizado no ‘lead’ é o elemento que lhes dá o “tom”, daí o cuidado na sua seleção.