Hoje vou escrever sobre cultura e coisas dessas mas este post até é fraquinho

O que é a cultura? A cultura é o acto, a arte de cultivar; a lavoura; o conjunto das operações necessárias para que a terra produza; o vegetal cultivado; o meio de conservar, aumentar e utilizar certos produtos naturais; a instrução, o saber, o estudo; o apuro, a perfeição, o cuidado.

O caule (como o espargo) é um vegetal cultivado, portanto, é cultura. O caule é composto, entre outras coisas, por córtex e medula, como a Joana Vasconcelos. Acresce ainda à Joana Vasconcelos o facto de ser perene. Isto, diria qualquer taxonomista, identificaria a Joana Vasconcelos como um espargo.

Não parece um aspargo. Foto François Bouchon/Le Figaro

Não parece um espargo. Foto François Bouchon/Le Figaro

Estas narrativas de mistificação grosseira são facilmente desmontadas recorrendo a uma fotografia da Joana Vasconcelos. A sua aparência denota propensão para a retenção de unto com consistência xaroposa num exterior Ku Klux Klan mas em mais gay. Por sua vez, o espargo tem propriedades diuréticas e um sabor delicado. Não me foi possível realizar a prova de sabor mas duvido com grande probabilidade da eficiência diurética da Joana Vasconcelos.

Quem ainda estiver a ler isto poderá achar que estou a gozar com a obesidade da Joana Vasconcelos. Caro leitor, porque haveria de fazer uma coisa tão cruel podendo conseguir um efeito muito mais directo mostrando as obras da autora? Asseguro-vos que isto é um exercício puramente científico.

Continuando.

Apesar das diferenças visuais, as semelhanças entre Joana Vasconcelos e o espargo não terminam no segundo parágrafo. Segundo algumas fontes que estudam estas coisas, menos de 40% da população consegue distinguir o odor sulfuroso da urina após ingestão de espargos. Da mesma maneira, menos de 40% da população mundial considera o que Joana Vasconcelos “constrói” como sendo cultura.

Deixemos as generalizações e vejamos o contraditório: de acordo com a biografia da própria, “a natureza do processo criativo de Joana Vasconcelos assenta na apropriação, descontextualização e subversão de objetos pré-existentes e realidades do quotidiano“. Até aqui continuam as semelhanças com o espargo. Continuemos: “partindo de engenhosas operações de deslocação, reminiscência do ready-made e das gramáticas nouveau réaliste e pop, a artista oferece-nos uma visão cúmplice, mas simultaneamente crítica, da sociedade contemporânea e dos vários aspetos [sic] que servem os enunciados de identidade coletiva [sic], em especial aqueles que dizem respeito ao estatuto da mulher, diferenciação classista, ou identidade nacional“. Ufa. Continua a parecer um espargo.

Porém, na frase seguinte, a ilusão é finalmente desfeita: “resulta desta estratégia um discurso atento às idiossincrasias contemporâneas, onde as dicotomias artesanal/industrial, privado/público, tradição/modernidade e cultura popular/cultura erudita surgem investidas de afinidades aptas a renovar os habituais fluxos de significação característicos da contemporaneidade“. Aqui o caso muda radicalmente de figura. É um parágrafo que explica um candelabro de Tampax na dicotomia artesanal/industrial, privado/público em afinidades aptas a renovar os habituais fluxos de significação característicos da contemporaneidade, ou seja, um espargo.

Isto é tão profundo. Tão profundo quanto o espargo consiga entrar. E agora ide trabalhar.