Da retórica da violência

Houve uma altura em que usava uma linguagem mais violenta, num acto deliberado de provocação, em comparações mais ou menos estapafúrdias, com intenção de originar falácias do interlocutor. Enquanto uns pensam “fora da caixa”, eu tendia para o tangencial, tocando a fronteira entre a caixa e o seu exterior, com o objectivo de levar o oponente a um Reductio ad Hitlerum que me permitia vencer o argumento por falta grave na retórica alheia. É um exercício de debate que origina resultados imediatos e de fácil consumo pelos observadores: é difícil atribuir a vitória ao boxeur que comete hari-kiri.

Algo mudou, entretanto, e não fui eu. Progressivamente, o discurso argumentativo dos críticos da austeridade1 voltou-se para o estado permanente de falácia: nazis, imperialistas, assassinos, fascistas, radicais-ultra-hiper-neoliberais, campos de concentração, regicídios, Wehrmacht, Balkenkreuz, inimigos do povo, agendas, ideologias, terrorismo… As colunas de opinião tornaram-se manifestos ao bullying do anti-. Anti-monetarista, anti-imperialista, anti-europeísta, anti-lógica, anti-aritmética, anti-alemão, anti-decência. É impossível argumentar segundo estas novas regras, com o apito do pénalti sempre a soar. Não só não existe fundamentação científica que sustente uivos desesperados, também não existe discurso escorreito que o contrarie sem o reduzir ao absurdo.

Petrarca dialogou com Agostinho de Hipona, num percurso de fé, de uma forma que Mário Soares não é capaz consigo próprio. Enganam-se os que pensam que o ex-presidente está louco ou afectado pela idade: pelo contrário, trata-se de política pura, populismo no seu estado de perfeição, criação e perpetuação, em ciclo de feedback negativo2, de violência falaciosa que gera volume constante de desilusão e contestação popular. A argumentação não existe, assim como soluções apontadas não passam de retórica oca, incapaz de sobreviver a escrutínio lógico. Nada disso interessa: numa fase em que se sugere “morra” como solução dos problemas, nada disso interessa. O que interessa é manter o sistema a funcionar, perigosamente mas no limiar do controlo, para devastar o que resta do pensamento individual. Criar massa homogénea, pronta a acolher o demagogo autocrata que prometa rosas. Felizmente, para os portugueses, essa figura não se vislumbra, pelo menos para já. Enquanto não surgir este príncipe do nacionalismo pelo crescimento, o Soarismo do século XXI vai fazendo escola e mantendo a estupidez a lume-brando.


1 Criticar austeridade é como criticar quimioterapia. O foco da atenção deve ser o cancro, não a potencial cura.
2 Os engenheiros perceberão a referência, os não-técnicos perceberão que é um sistema que se alimenta do seu próprio resultado parcelar, os socialistas não entenderão nada.