Rascunho de guião para um filme do leste europeu

Preto e branco, créditos como flashcards pretos com letras brancas (serifadas) intercalados com imagem fixa de riacho.

Homem nu, exceptuando as meias pretas, caminha num prado desolado. Clara representação do onirismo da existência.

Na casa rústica, em ruinas. Dentro encontra-se J, mulher na casa dos 20, cabelo claro, atraente mas desarranjada, com um olho de vidro (esquerdo). Olha pela janela. Duração da cena: aproximadamente 11 minutos (o necessário para todo o segundo andamento do concerto para violoncelo em si menor, Op. 104, B. 191 de Antonín Dvořák).

Três ratazanas num palheiro vestidas com uniformes semelhantes às SS.

Homem nu entra na casa rústica, é o pai de J. Comem batatas cozidas (com casca). Após a refeição, veste-se para dormir numa marquesa de ginecologista.

Homem de bigode e cartola entra em casa durante a noite. Exige o pagamento do cavalo que abateram no ano passado por altura da febre tifóide. Dialogo sobre a decadência ocidental e casamento inter-racial numa alegoria do castelo kafkiano que opõe a maquinação burocrática à organização natural do naturalismo pré-existencial.

Bruxas são queimadas na praça pública pelo senhor feudal, gordo vestido de jogral com uma corneta a servir de cauda. Desdentados dialogam sobre a fome usando apenas citações de “Critique de la Raison Dialectique”.

Canção de Armando Gama num cabaret de amputadas.

A casa arde com o homem nu dentro. J, no exterior, despe-se até ficar apenas com as meias pretas. Pomba branca pousa-lhe no mamilo direito e ouve-se um grito de criança.

Faquir entra na cidade, representando o sacrifício da penetração pela profanação da opressão no corpo comum da sociedade empedernida. Diálogo oposicionista entre faquir e senhor feudal em que cada um representa Heidegger e Jürgen Habermas alternadamente.

Corvo com meias pretas pousa no campanário. Ouve-se um grito de criança.

J caracterizada de Bertrand Russell recita Mein Kampf. Corte para senhor feudal amputando corneta. J, agora nua, perdeu mamilo direito.

Créditos finais – preto com letras brancas (serifadas).