“Ó manhê, olha o Sócras na telebisão”

Entra em casa, com os jeans rotos arejando o suor da tarde a jogar à bola. Sabe que devia ter chegado mais cedo, mas também sabe que por mais cedo que chegasse, chega sempre tarde demais. As mães são assim, quando preparam a sopa dominical que se congela para comer durante a semana. São os que não jantam diariamente no Tavares, descamisados desconhecedores do Feitoria e que do Gambrinus só conhecem as pessoas que diariamente lhes invadem a atravancada sala dominada pelo televisor.

– Ó mãe, olha o Sócras na televisão!

Pára tudo. Não foi este o mandrião borra-botas que chamou a tróica? O que se pôs a milhas lá para a França quando viu que tinha danado o povo a estes miseráveis que nos empobrecem? O que disse que nos adorava e tchauzinho, pôs-se a milhas?

Do outro lado da cidade, onde não há pretos como vizinhos, ouve-se o fungar da serviçal após um rápido brilho nas pratas do jantar. A senhora está impaciente, há uma exposição da Joana Vasconcelos – que é simplesmente divinal – e o jantar tarda em encaixar-se perfeitamente na simetria do ténue badalo horário do relógio herdado.

– Maria, temos que sair.
– Senhora, presenteio-vos com este deleitoso manjar confeccionado na…
– Cala-te, Maria, deixa ouvir o engenheiro Sócrates.

Sozinho, em sua casa, arrancando os dardos atirados durante a tarde pelos camaradas de partido enquanto aquece a lasanha no microondas, António José Seguro olha a televisão e ri, ri, ri.