Elegia ao soldado desconhecido

Chovia. Tinha acabado de ler Manuel Alegre e acendera a lareira. Tinha as amêndoas espalhadas na mesa da sala, presente da madrinha, roçando as amostras de papel higiénico embebidas em muco nasal, amarrotadas, pegajosas, colantes. Coçava a nuca enquanto revolvia o testículo através do bolso rasgado. Prometera tatuar algo com significado no braço, pelo que recorrera ao Google Translate, copiando devagarinho os traços em árabe. Lobo Antunes sobreviveu, ele também sobreviveria. Ou sobreviverá. Mas a espera mata. Faltam várias horas para a eucaristia, na RTP1, com o ex-primeiro ministro. Quem lhe dera também ser engenheiro. Quem lhe dera viver no Heron Castilho. Lisboa perdera o encanto desde que partira, qual Linda de Suza, para destino incerto num bairro chique parisiense. Paris é taciturna. Amantes deficientes numa ponte, e ele aqui, esperava. A espera apoderava-se como um fervor que não se vê numa pele de galinha que se sente. O toque. Ambicionara o seu toque. As horas. O tormento e a inquietude. A dor, a maldita da dor, a puta da dor, da entrevista que nunca mais chega, não aguenta, não aguenta, não aguenta mais…

Foi-se. Desapareceu como aparecera, do nada, para o nada. O coração não aguenta a força da paixão que se lhe apodera. Isso e a hipertensão. Coiratos. Não são muito saudáveis. Findou-se por amor, amor não correspondido, mas amado, bem sentido, dorido, fatal.

Ela coloca-lhe a fotografia de Sócrates no caixão. Finalmente juntos.

 


Nota do autor: este foi o promo que escrevi para a RTP1 e que, por motivos que desconheço, foi rejeitado.