Crise de amor

O Pedro Prola diz que estamos a passar “por uma crise de compreensão“. Faz sentido porque eu não compreendo o que ele diz. Mas vou tentar.

Outrora, os confrontos de interesses tratavam-se à porta fechada, em reuniões de uns quantos líderes, num pequeno clube.

Como nas lojas maçónicas. Ainda temos dessas, mas se discutem ou só jogam à macaca com os seus aventais, não consigo apurar. Este é o mesmo Pedro Prola que se queixa que o governo não negoceia porque não há notícias do governo a negociar; isto porque porta fechada só é porta fechada se for aberta pelos media.

As eleições internas vinham depois, a Europa vinha primeiro.

Há centenas de exemplos de grandes líderes que nem chegaram a grandes líderes porque puseram a Europa acima de todos os seus interesses, do partido, do país, dos seus eleitores. Infelizmente o Pedro não menciona nenhum.

A fragmentação beneficia os estados maiores, dá-lhes uma espécie de poder de veto

Diz o Pedro, que quer consenso. Consenso, que como se sabe, impede poder de veto. Um tipo que esteja contra, em consenso, vota sempre a favor, senão, não há consenso e a frase do Pedro deixa de fazer sentido (para o Pedro).

não há uma comunicação social europeia, verdadeiramente

Alberto João Jardim tem razão, são todos cubanos. Não há consenso na comunicação social europeia, o que fomenta não existir consenso nas instituições, consenso esse que naturalmente existe entre dinamarqueses e gregos. A comunicação social europeia, para o Pedro, está contra os interesses do povo.

Entretanto, os interesses colidem

Pois. Like they do.

Os líderes dos estados deixaram de fazer, entre si, a ponte entre os seus cidadãos e a Europa.

Sempre preocupado com a construção civil e o estímulo ao emprego. Lembro-me do tempo em que me reunia com o líder do meu estado e lhe expressava as preocupações com o trânsito na rotunda em Brno ou as condições sanitárias dos balneários no campo da associação de ferroviários de Aberdeen. O líder fazia a ponte. A Europa preocupava-se. E eu preocupava-me, como cidadão pensante (que sou), com a Europa e as condições de vida dos meus irmãos europeus.

A alternativa, instituições democráticas fortes, com mandato para resolver este tipo de crises (matéria que agora escapa aos tratados e, por isso, tem de ter base intergovernamental), parece não agradar a ninguém.

Instituições democráticas fortes, capazes de resolver estas e outras crises, uma coisa intergovernamental, mas baseada no consenso, com todos de acordo, mesmo os nudistas alemães e os púdicos polacos na fronteira. Consenso para legalizar o casamento gay em Chipre ou abortar na Irlanda. Uma força das instituições que permita fomentar o amor e a tolerância entre todos, a uniformização do hippieismo (não envolve carne de cavalo) que nos permita erguer por entre as diferenças num objectivo comum, viver à custa de alemães.

a importância do custo a pagar que está nos benefícios que todos temos na preservação da paz, no progresso e na economia social de mercado

A paz está em causa. Ou fazemos o que o Pedro Prola sugere ou temos guerra. Kissinger está orgulhoso. Progresso não sei bem o que é para o Pedro e “economia social de mercado” prefiro nem saber.

Já não há desses líderes nos estados, nem eles permitem que surjam num nível federal.

Dizia o meu avô: “no meu tempo, havia líderes a sério, não é como agora, em 1955, ano da decadência”. Para o Pedro, não surge nenhum grande líder europeu, o que seria importante, desde que não fosse populista, nacionalista e, sobretudo, fosse consensual. No fundo, o PS é um problema: pequeno partido a nível de votantes na população europeia, não consegue consenso no seu próprio líder. Vamos exportar o consenso, comecemos pela casa dos outros.