Cigarro pós-entrevistal

És tão profunda

És tão profunda.
(imagem tirada daqui, sei lá de quem é isto)

Agora que já nos lavamos, está na altura de fumar o cigarro pós-entrevistal, período de reflexão de cenas antes da obrigação dos “és muito linda e profunda” enquanto se faz cadeirinha.

Ora bem, por onde começar? Tal como na Divina Comédia, quando a personagem está a entrar no Inferno, é tudo uma questão de narrativa: está lá o Inferno ou é a personagem lá situada porque assim o autor quis? Isto tem pano para mangas.

O Coiso ainda não sabe porque perdeu as eleições. As gueixas do Coiso também não. Provavelmente o leitor também não. Quem sabe é Brochnyziev, quando escreve no seu opus Stvari (que li no original croata), que “há coisas que são complicadas“. O Coiso perdeu eleições porque é vaidoso. Está bem, pronto, faliu um país, o que até pode ser aborrecido se somos pessoas para nos preocuparmos com coisinhas mundanas; mas isso não o fez perder as eleições. Uma gaja que leve nas trombas todos os dias sabe perfeitamente que isso são só nervos e que o marido a ama e respeita. Um gajo não tem culpa por ter os nervos à flor da pele, isso vai de mão dada com o marido não ser mariconço.

Pois, vaidade. Ninguém gosta de um exibicionista com a mania que tem o maior pénis. Nem os gajos, por motivo óbvio; nem as gajas, que teriam que admitir péssima escolha de cobridor. Os mictórios são desenhados de forma a que seja difícil andar ali a mostrar a testicularia. Se não fossem, rapidamente a coisa descambaria em pissing contest, como as lagostas fazem1. O gajo nunca fez profissionalmente nada além de demonstrações do maior pénis, falindo o país apenas como hobby, já que não colecciona selos. Mas as pessoas fartaram-se. Há uma altura em que é preciso mais que isso, é preciso fazer cadeirinha e meter “I Will Always Love You” pela Whitney Houston2. Seguro percebeu isso, até Cavaco percebeu isso (‘mãos dadas’, ‘em conjunto’, ‘juntos conseguimos’, ‘partilha fraterna’, ‘andorinhas da fábrica Bordallo Pinheiro‘). O Coiso não percebe, é uma máquina de foda, sempre pronta a metralhar qualquer buraco – com técnica, sim senhor (“é preciso deixarem de escavar”) – mas sem emoção, sem remorsos pós-eruptivos do ‘de onde vamos, para onde vimos’.

Passos Coelho e o seu governo têm que aprender estas coisas. Não faltam os artigos de opinião que dizem exactamente isso, pina bem mas falta-lhe carinho (“ninguém o toma a sério“, “insensível“, “chegou ao fim“). O PCP até acha que a cena chega ao estupro sem o carinho associado (“pacto de agressão“).

Assim sendo, o meu vaticínio é que o Sócras vai ainda andar aí aos caídos, dando um jeito aqui, cobrindo uma necessidade ali, mas sem relevância para uma relação séria. Noites de strip com as amigas, sim; mas levar o ogiva de chantilly para casa já não é opção.

 


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2 Pessoa que percebia que um gajo tem os nervos à flor da pele.