As pessoas não estão a ver isto bem

É fácil rirmos das coisas que diz um neo-hippie estudante (de sociologia, naturalmente) do Bloco de Esquerda. É engraçado e aceita-se como uma coisa pitoresca, como ir ver os golfinhos a Tróia ou tirar fotografias em frente à casa de Elvas onde não se cometeram crimes. Portugal é pitoresco e isso é bonito. É até saudável fazermos petições tão díspares como “o cão Zico não é um objecto é um animal” – que pretende demonstrar existência de vida num corpo inanimado – e “petição a FAVOR da presença de Sócrates na RTP” – que pretende demonstrar que Sócrates deve Voltaire à participação pública.

No entanto, quando um homem sério como Manuel Alegre nos diz que “estamos como aqueles prisioneiros dos campos de concentração que viviam na ilusão de que a vez deles talvez não chegasse enquanto os  outros iam sendo encaminhados para as câmaras de gás1, eu acredito. Primeiro, porque o Manuel Alegre sabe o que sente um prisioneiro num campo de concentração; segundo, porque Alegre sabe que um prisioneiro num campo de concentração tem esperança que não chegue a sua vez. Manuel Alegre sabe isto porque foi também assim que se sentiu o Partido Socialista quando houve hipótese de Manuel Alegre se candidatar à presidência.

Manuel Alegre continua – e muito bem – afirmando que os “donos da Europa germanizada metem medo“. Aqui há uma subtileza que exclui Schaüble e Durão Barroso dos donos da Europa germanizada, apesar de anuir que também estes metem medo. “Tomam uma decisão e exterminam um país” parece um bocado exagerado mas, se Manuel Alegre o diz, eu acredito.

Mas eu já estou a sentir-me condenado” é uma reflexão profunda sobre a mortalidade, Dylanesca até, que merece contemplação, apesar de não perceber muito bem porque entra Alegre nesta temática a meio de outro assunto. É uma liberdade artística, penso eu.

Depois vem a parte mais pungente: “Não consigo deixar de me sentir cipriota“. Percebo a angústia de Manuel Alegre. Durante algum tempo não consegui deixar de sentir o quão bom deve ser ter mamas que possamos apalpar a toda a hora, mas nunca tive coragem de o expor aos leitores e, entretanto, passou a adolescência. Admiro a frontalidade do Manuel Alegre nesta temática hormonal.

Alegre termina dizendo que a União Europeia “começa a ser uma ameaça de tipo totalitário, com o objectivo de empobrecer e escravizar os países do Sul“. Isto entristece-me porque sempre fui levado a crer que o socialismo levava à prosperidade e, que eu saiba, o dinheiro alemão ainda não acabou para nos privarem agora deste sonho de liberdade. Sou contra a escravatura, e tal como os republicanos que lutaram contra democratas pela sua abolição, acho que temos que fazer qualquer coisa por isto.

Manuel Alegre lidera o caminho. Temos que cortar amarras com esses germânicos esclavagistas e mostrar-lhes que não precisamos da caridadezinha deles. Vamos comprar a nossa independência e não mais lhe pedir dinheiro, que é para eles verem. As pernas deles já tremem.

Agora, as pessoas a gozarem com o texto do Manuel Alegre tira-me do sério. Se continuarmos a gozar com as opiniões ponderadas de Manuel Alegre (e outros históricos, como Mário Soares), arriscamos-nos a sair de vez deste período político do pós-25 de Abril que tão bem está a correr.

 


1 Se não quiserem clicar no link, escrevam “chipre-nos” a seguir a “www.ionline.pt/opiniao/” e chega lá.