Esta merda é socialismo do bom

Há uns tempos, o @Vega9000 escreveu um post muito interessante, que por motivos Zandinga, comentarei agora para “referência futura”, como se diz no meio.

 

Estive ontem num debate local sobre a situação económica com dois jovens deputados do PS, Pedro Nuno Santos e Pedro Delgado Alves. 

 

Pedro Nuno Santos é jovem. Tão jovem quanto isto:

 

A primeira responsabilidade de um primeiro-ministro é tratar do seu povo. Quero-vos dizer mais: na situação em que nós vivemos eu ’tou-me marimbando para os nossos credores, e não tenho qualquer problema enquanto político de o dizer, enquanto deputado de o dizer. O que em primeiro lugar, primeiro que os banqueiros alemães, do que os banqueiros franceses, estão os portugueses. ‘Tou-me marimbando para o banco alemão que emprestou dinheiro a Portugal nas condições em que emprestou. ‘Tou-me marimbando que nos chamem irresponsáveis. Nós temos uma bomba atómica que nós podemos usar na cara dos alemães e dos franceses e essa bomba atómica é simplesmente “não pagamos”. “Ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos. E se nós não pagarmos a dívida e se lhes dissermos, as pernas dos banqueiros alemães até tremem. Só que infelizmente, os líderes destes estados, não usam a única arma que têm. Provavelmente nunca jogaram poker e não sabem que nós estamos numa guerra política, e que o bluff – bom, se nós não tivermos que pagar também não pagamos – mas numa primeira fase, bluff.

 

Adiante, passemos aos pontos que o Vega9000 nos deixa.

 

Parece-me há plena consciência dentro do PS sobre a gravidade da situação em que nos encontramos e sobre a catástrofe que 2013 anuncia, bastante mais do que a direcção deixa transparecer cá para fora.

 

Há consciência. Sabem o que fizeram. Não deixam transparecer para fora porque seria admitir que fizeram asneira sobre asneira.

 

Há também um diagnóstico correcto sobre o caminho que nos trouxe até aqui, que continua muito ausente do discurso oficial, e sobre as consequências económicas e sociais da estratégia do governo e troika, que tem sido falado mas não com a veemência suficiente.

 

“Há diagnóstico correcto sobre o caminho que nos trouxe até aqui”: sim, chama-se Sócrates.

 

Dito isto, há boas ideias para uma futura estratégia a seguir, sobretudo na parte da renegociação do MoU, algumas até que nunca ouvi mencionadas antes. Mas por enquanto são ideias soltas, sem estarem agarradas a nenhum caminho claro e definido

 

Renegociar o MoU como? Quem? Porquê? Com que objectivo? Mais tempo, mais juros, mais dívida? Hummm… Afinal não, não fazem um diagnóstico correcto sobre o caminho que nos trouxe até aqui.

 

Nota-se também o sentimento de algum desânimo, pessimismo, de andar a correr atrás dos acontecimentos. Não só com a situação adversa no país, mas, ainda mais grave, com a própria UE.

 

Pois. O caminho é liderar a UE, liderar os acontecimentos. Estou certo que 503,492,041 pessoas não se importam de ser lideradas por 10,581,949 socialistas falidos (afinal, representam 2,10% da população europeia).

 

Isto é muito potênciado pelo sentimento generalizado que o PS devia estar a liderar o debate, mas não está. E não está porque embora haja ideias e talento, muito talento, óbvios no que ouvi ontem, não há estratégia para o país, um grande desígnio que possa absorver e filtrar as ideias que existem.

 

Debate? Debate de quê? Se paga em notas de 10 ou de 20€? Talento? Sim, para a falência. Estratégia para o país? Já tiveram muitas, nenhuma delas deixar as pessoas em paz para que com a sua livre iniciativa fomentem o crescimento do país.

 

O debate mencionou, muito de longe e a distância segura, o elefante na sala: a hipótese de saída do Euro. Mas parece-me que continua a ser assunto tabu. Já o disse e reafirmo: não pode ser, tem de ser discutido, porque não há estratégia de renegociação que possa evitar esse assunto. Ou então andamos a pedinchar “solidariedade” ou a esperar que os ventos mudem. E se não mudarem tão depressa? E se a resposta a uma renegociação, ao estilo do que aconteceu na Grécia, for “não” seguido de “têm aqui mais medidas de austeridade”?

 

Como não entendem o dinheiro, também não entendem as consequências de saída do euro. O elefante na sala não é a saída do euro e sim a saída da UE. Portanto, os socialistas são parte do elefante na sala (bolas, são o próprio elefante).

 

Há também um debate a fazer, em paralelo, sobre o que significa um PS e uma esquerda moderna. Ouvi coisas com que concordei, outras que discordei absolutamente. Mas dá a ideia que a esquerda continua num eterno periodo de transição, ainda um bocado abalada com um mundo novo globalizado e hiper-competitivo, e agarrada a alguns preconceitos antigos, como uma velha desconfiança face ao capitalismo que continua presente. Em tipos como o Alegre não me surpreende, em tipos novos sim. O tempo não volta para trás, por isso é pegar na realidade de agora, diferente dos anos 50, e abraçá-la. Tentar retirar daí as maiores vantagens. A direita não tem dúvidas nenhumas. Nenhumas. E por isso passa a mensagem.

 

A esquerda continua num permanente estado de transição porque nenhuma delas funciona. Sempre que a realidade lhes caí em cima, reinventam-se um bocadinho para disfarçar as velhas ideias de engenharia social centralizada com vocabulário contemporâneo.

 

A conclusão é ainda mais gira:

 

Uma nota final, esta mais vaga e se calhar injusta: saí de lá também com o sentimento que não há uma plena consciência, pelo menos nos dois deputados presentes, do real poder que um partido do arco da governação pode ter, mesmo na oposição.

 

Claro que há. Consiste em posicionarem-se para os tachos do senhor que se segue. Quem ainda não percebeu habilita-se a ficar fora da dança das cadeiras.