José Gil no Prós e Contras – Segunda Parte

FCF: Eu gostava de introduzir aqui agora outra questão que é a questão do risco. Nestes períodos históricos têm que se correr riscos, já foi assim no passado, no passado em muitos momentos da história, até no passado recente, depois do 25 de Abril houve quem corresse riscos para que o país se enverdasse por uma democracia, plena, e, nós hoje tememos que não haja quem queira correr riscos por um conjunto variado de factores entre eles, entra outra vez a comunicação social que há pouco (penso que foi o António Hespanha que referiu). Professor José Gil, faz falta quem corra esse risco deliberado atravessando-se pelo interesse público maior na sociedade?

 

JG: Com certeza. Com certeza e é uma falta constante, eu acho que há, que nós estamos a discutir, no fundo, pressupondo dois planos que é preciso distinguir. Um é o plano das instituições, o plano da… formador dos indivíduos, etc. E depois o plano individual. O plano das… dos espaços fora ou entre as instituições, hum? E estamos a pôr toda a esperança, não nas instituições, não nos políticos, não no sistema (excepto a Lídia Jorge) no sistema democrático, mas o sistema democrático, se ele deixa essas linhas de fuga passar, não é? E passar para essas linhas de fuga. Ora, donde é que pode vir um movimento de transformação? Se pensarmos têm que vir dos dois porque a coisa, a coisa, quer dizer, o encimes.. mes.. mas.. mento, a nossa tristeza profunda… Nós estamos aqui a falar de forças vitais, mas onde é que estão as forças vitais? Nós temos muito mais forças vitais do que aquelas que nós mostramos. Portanto, falta-nos o quê para essa (não gosto da palavra, já foi criticada) mobilização, esse movimento nas linhas de fuga? O que é que nos falta? Falta-nos expressão. Expressão vital. E expressão vital significa expressão de corpos, expressão de palavras, expressão de jogos, expressão de encontros, expressão de criatividade que se fala tanto e que está tão fora. Como disse o senhor João Salgueiro, o senhor professor Salgueiro, tudo começa quando somos pequeninos. Tudo começa na escola. Tudo começa quando a criança é pedagogizada a toda a força, como se o destino da criança fosse um futuro e que não tivesse um presente, não é? Quando se fala destas manifestações é a conquista de um presente, porque ele nos escapa, hum? E é a conquista de nós próprios porque precisamente nós estamos, estamos partidos, divididos entre o povo, que são os outros, o povo português e depois eu próprio, que não pertenço a esse povo, e que o critico – o povo português é horrível, etc, etc, etc – quer dizer, eu estou fora. Portanto, mas como estou dentro eu sou dois. Ora, o que me parece é que nós chegamos a um tal momento de crise…

 

FCP: Chocamos uns com os outros,…

 

JG: …que somos capazes de…

 

FCP:  …demos com o nariz no espelho.

 

JG:  …e isso significa termos uma outra relação com o outro. Mas concreta, de corpo a corpo, de corpo a espaço. E é o que acontece naquilo que se chama manifestação política. Bom, mas para mudar essa formação da criança, que depois passa à escola, e na escola é burocratizada, é avaliada de uma maneira… e isto está a passar para a universidade, isto leva a criança e o adolescente e o jovem na universidade a uma coisa ho… terrível, que eu acho, que falta em Portugal, que é a exigência de pensar. Nós não queremos pensar no esforço de pensar que é um prazer de pensar. Não. É a tal força da doxa, a força da opinião, a força dos hábitos e… e… e dos hábitos da conversa habitual, Quando há! Ora, como fazer, mostrar, mostrar que há um outro prazer e há um prazer… repare como os portugueses estão, estão ossimbiotizados, a relação ou é uma relação de simbiose, em que ali há, há o tal espelhamento, não é? ou, ou não se tocam. Não se tocam, não fazem assim [toca no convidado do lado] e não têm aquela, aquela, por exemplo, como os brasileiros têm, não é? Há uma separação dos corpos, que é formada por essa pedagogização desde a escola, portanto, os dois planos, o plano político e o plano, o plano das instituições, e o plano da vida, hum? têm que, têm que se articular de maneira a que o plano, a responsabilidade das instituições, do poder político, etc, etc, se exerça antes de mais na educação para criar espaços de expressão, espaços não de inibição e de formatação, como se diz, para a vida deixar a vida jorrar no que ela tem de imprevisível e isso é criação. Porque não é segundo uma… e isso é pensamento. Uma das coisas que me surpreende mais, e que me surpreendeu mais na universidade – e falo de acordo com o que disse o professor Hespanha – os nossos alunos são inteligentes, como todos, às vezes mais inteligentes…

 

FCP: Mas estão adormecidos…

 

JG: Er…

 

FCP: …é isso?

 

JG: Er… mas não mostram a inteligência, mas não exigem de si o esforço, é preciso que o esforço de pensamento seja uma exigência da universidade.