José Gil no Prós e Contras – Primeira Parte

José Gil expressou ontem no Prós e Contras, entre outras, todas as ideias chave de um novo paradigma de salvação nacional. Aqui faço a transcrição.

 

Primeira Parte.

 

Fátima Campos Ferreira: José Gil, Stéphane Hessel, um francês de 93 anos escreve um livro que se tornou bestseller em França, em francês chamado “Engagez-vous!”, em Português foi traduzido por “Indignai-vos!”. Talvez “Comprometei-vos” ou “Empenhai-vos” pudesse ser mais directo. Este homem, de 93 anos, que aliás escreve livros também de parceria com um jovem, quer que esta juventude altere o paradigma em que vivemos. Que o paradigma seja alterado e os modelos de crescimento, os modelos económicos, tudo isso seja diferente. O senhor acha que é por aí? Que são eles que vão ter que fazer a mudança?

 

José Gil: Não é eles, eu acho que nós todos mas eles certamente que têm mais energia e mais força de investimento. Agora, o que me parece é que há aqui uma situação em que nós estamos que é muito particular e que exige, exige uma realidade que me parece importante para uma eventual saída, não sei. Até agora o que é que nós temos visto? Temos visto uma falta de coesão social por causa de certas estruturas profundas da sociedade…

 

FCP: Portanto uma sociedade muito corporativa em termos de organização de corporações, é isso?

 

JG: Er.. Não. É na relação que existe entre, na relação social que existe entre indivíduos, entre grupos e grupos, entre grupos e indivíduos e entre indivíduos e instituições. Há uma… e que se, que culmina agora neste vai e vem que nós temos assistido entre dois partidos que é um espelhamento, um espelhamento, como já se tem dito, conjugal. Se eu falo nisto é, unicamente, para dizer que isto leva – quando há um espelhamento conjugal, não sei se lembra de um filme, “Quem tem medo de Virginia Woolf”…

 

FCP: Sim

 

JG: É isso…

 

FCP: Recordámo-lo ainda há bem pouco tempo com a morte do errs…

 

JG: E quanto há esse mimetismo perde-se o sentido da realidade. E nós perdemos o sentido. Não sabemos aonde está e como sair, uns são espelhos de outros, não é? E há um esfarelamento da coesão social. Ora, quando isto acontece é preciso um terceiro termo. É preciso um terceiro termo! Quer dizer, porque já não se vê a realidade. Já não se pode sair. Por onde se sai? De quem é a responsabilidade? Como fazê-lo? E esse terceiro termo tem que ser um choque, tem que produzir um choque, tem que ser um termo fora de todos os elementos estruturais que jogam e que entalam os indivíduos todos e que podem reformar uma coesão social que nós estamos a perder, constantemente. Quer dizer, é preciso que venha, não necessariamente toda uma bateria de velhos e antigos e bons mas que já não se dizem a si valores, mas que apareça um espaço, um espaço em que a comunidade, a sociedade civil tenha uma pertinência muito maior relativamente ao sistema dominante que é o sistema partidário, o discurso ideológico, etc, etc. E que é isso a tal geração, o tal investimento que é necessariamente afectivo, afectivo quer dizer não unicamente intelectual, mas tem que ser intelectual também, e que vai criar um espaço, um espaço vazio, um espaço neutro, um espaço onde não haja egos, onde não haja lutas pelo poder, onde se esqueça precisamente a ambição pessoal, quer dizer, em que se transforme na acção mesmo, os indivíduos e os grupos.

 

FCP: E isso existe, sotor?

 

JG: Isto existe, se, se… Existe, existe em mil acções, olhe, existe quando um artista faz uma obra. Isso existe. 

 

FCP: No trabalho de equipa, por exemplo?

 

JG: Pois. Ou de um trabalho solitário, dito solitário, que nunca é solitário. Não é? Nós temos uma multidão virtual dentro de nós.

 

FCP: O Stéphane Hessel diz que vamos caminhar para o indivíduo, que tem que surgir um poder individual, neste momento. O senhor concorda com isso?

 

JG: Eu, eu diria, tem que surgir um poder singular, de uma singularidade. O indivíduo…

 

FCP: Tem que ser uma vontade própria de cada um para depois partir para o colectivo…

 

JG: …uma vontade que atravessa cada um… Não é? Como se diz? Desculpe este, esta comparação, quem faz a obra de arte não é, não é um, um senhor que assina. São uma série de forças que o atravessam. Portanto ele é submergido. É preciso que nós, nós passemos a gostar de nós, e dos outros, hum? Porque essa estrutura de que eu falei, que está, subjaz à sociabilidade portuguesa, faz de nós, er… er… uma comunidade que… er… er… perversamente se entretece e se enlaça paranoicamente, por afastamento.

 

FCP: O senhor disse recentemente…

 

JG: …é esquisito mas é assim.

 

FCP: …a olhar para a política nota que não há políticos, não há responsabilidade, ou políticos que se alcem a uma responsabilidade nacional. O senhor diz isso…

 

JG: Sim…

 

FCP: …numa entrevista recente. Isso quer dizer…

 

JG: …disse

 

FCP: …que este espaço de jovens, estes jovens que era nisso que creio que estava a pensar, podem criar, neste momento, pode ocupar esse espaço de, de responsabilidade ou…

 

JG: Mas é…

 

FCP: …ou ou podem cair em convulsão, podendo vir a assistir convulsões de rua, a situações mais ou menos até violentas?

 

JG: …claro. Nós estamos a deixar irromper enfim o real e o real é sempre violento na sua irrupção. Agora pode acontecer muita coisa. A situação é tal que pode aparecer um demagogo populista e apresenta-se como transcendendo todos estes partidarismos e representa o interesse nacional e é capaz de…

 

FCP: As pessoas neste momento estão a pensar: “o que é que ele quererá dizer”? Que estes partidos não servem? Que… que… ou são estes políticos? Como é que o senhor professor agora faz aí uma tradução para aquilo que é o nosso espaço público com essa sua reflexão? Como é que as pessoas devam olhar para estas querelas inter-partidos e para o espectro da situação política, neste momento, agora muito mais nas mãos do próprio Presidente da República que vai reunir o Conselho de Estado, e já ouviu os partidos, e vai convocar certamente eleições?

 

JG: Pois! O que eu digo é que esta, o que deve acontecer, o que pode acontecer, de melhor, é criar um espaço de fora. Fora disso. Não…

 

FCP: Um governo de iniciativa presidencial,…

 

JG: Não estou…

 

FCP: …de incidência…

 

JG: …a falar do governo.

 

FCP: parlamentar?

 

JG: Não estou a falar de governo. Estou a falar de investimentos sociais: como agir? É preciso que a sociedade civil possa inventar-se, inventar soluções, pequenas soluções. E isto significa espaços. Imagine que aparecia uma TV, um canal de televisão que não estivesse, não estivesse, abs.. absolutamente sujeito a nenhuma influência partidária nem a um discurso ideológico. Que é que aconteceria? Onde se pudesse exprimir a sociedade civil?

 

FCP: Mas esse…

 

JG: Que não estivesse submetido…

 

FCP: …está num canal onde isso tem sido possível com as condicionantes daquele que é o espaço mediático…

 

JG: O espaço mediático…

 

FCP: …de certa forma.

 

JG: …por si só, é um espaço que condiciona de uma maneira não neutra.