Ontem ficaram a ver Zeppelins

 

Zeppelin

(foto The National Archives UK)

 

O deslumbramento tecnológico é um fenómeno interessante mas, infelizmente, não é novo. Infelizmente porque a História não ensina nada a ninguém pertencente ao grupo dos que já tudo sabem.

Ontem, durante a eleição presidencial, muitos portugueses foram surpreendidos com as idiossincrasias do Cartão de Cidadão, nomeadamente o facto de este tratar-se apenas de um receptáculo de post-its onde constam as dezenas (centenas?) de números que nos identificam perante o Estado. Há o “número de identificação” – que interessa quando roubar uma carteira a uma velhinha; o “número de contribuinte” – que interessa quando roubar uma portagem à Mota-Engil; o “número de beneficiário” – que interessa quando o Estado me fizer o favor de atender num centro de saúde recentemente construído mas sem médico de serviço; o “número da segurança social” – que interessa quando verificar que não tenho direito a subsídio de desemprego (ai o velhaco do patrão); etc., etc., etc.

 

Lamento o Cartão de Cidadão não conter números igualmente importantes como o do tamanho dos sapatos ou o horário do autocarro que apanho diariamente para ir buscar o miúdo (ele tem os seus próprios números) aos jardim infantil (que é o número 3 aqui da freguesia).

 

Voltando ao caso, o problema registado ontem foi, na sua essência, o pouco espaço disponível no Cartão de Cidadão físico para reter toda a informação contida no seu espaço virtual. Isto dito assim até soa mais ou menos bem mas, mergulhando um bocado mais para o fundo, questionamos a validade da substituição de um papel por um inútil chip que depende de factores externos – a saber, largura de banda – para que se obtenha informação útil.

 

O deslumbramento tecnológico, bandeira deste governo, consiste em criar chavões, gadgets e merdas que parecem tecnologicamente avançadas mas que, na realidade, não passam dos pneus recauchutados da típica incompetência de quem decide. Simplex, Magalhães, Cartão do Cidadão, Empresa na Hora, DEM, são exemplos de azeitonas podres a armarem-se em ameixas fresquinhas. Ideias lindas no papel que, na prática, são pesadelos mais burocraticamente kafkianos que a barata que nos governa.

 

Os acérrimos defensores das tecnologias sem as substâncias, coincidentemente defensores acérrimos do governo de Sócrates, são os deslumbrados dos Zeppelins que, mesmo durante o incêndio, afirmam veementemente os méritos da ideia.